um
gato
por danuza leão - folha de são paulo, 7/9/2003
de uns 30 dias para cá, entrei num novo universo:
o dos adoradores de gatos.
foi assim: resolvi ter um e procurei saber com um amigo quando haveria
uma feira para comprar um lindo filhote etc. e tal. Ele foi logo me dizendo
que nada disso, que o melhor gato é o vira-lata, e me deu o telefone
de outro amigo, que me deu o telefone de outro amigo, e assim sucessivamente;
aí conheci (só por telefone) um grupo de pessoas simpáticas
e prestativas, sempre prontas a ajudar com um conselho, uma informação,
uma explicação psicológica sobre o comportamento
dos gatos, e com as quais me comunico com freqüência.
aprendi que gatos não se compram, se adotam, e são os membros
dessa confraria informal que fazem a intermediação entre
quem está querendo um e quem está com uma ninhada em casa.
E tem mais: como existem lugares na cidade onde os sem nenhum coração
abandonam os filhotes, eles costumam ir a esses lugares para recolhê-los
e encaminhar para a adoção. A pessoa que me confiou o meu
tem 36 em seu apartamento.
antes de Haroldo -é o nome dele- chegar, fui a uma loja especializada
comprar um pequeno enxoval, digamos assim, para recebê-lo. Cheguei
em casa com um tipo de banheirinho, areia, caminha, ração
para filhote, patê em lata, vasilhas para comida e bebida e brinquedinhos.
Embatuquei quando o vendedor me perguntou de que sabor queria a ração:
de peru, de galinha, de peixe? Nacional ou importada? E como escolher,
sem conhecer seu paladar?
quando Haroldo chegou, minha vida mudou. Ele não me larga um só
minuto, e tirando a hora em que se instala no teclado do computador ou
se coloca exatamente entre meus olhos e o jornal ou a televisão,
é uma delícia que nem dá para contar. Tão
grande que nos primeiros dias eu não conseguia sair de casa para
não deixá-lo sozinho. Resultado: agora tenho também
uma gatinha (ainda sem nome) no pedaço, para que ele não
se sinta muito só na minha ausência. E o pior: estou ficando
gagá, e quando saio fico querendo voltar logo para casa, tantas
as saudades.
eles retribuem e me amam de paixão, uma paixão total e incondicional.
Os dois são pequenos, me seguem pela casa onde eu for, se enrolam
no meu pescoço para dormir -ainda bem que não estamos no
verão-, e quando o veterinário disse que seria aconselhável
a castração e a esterilização, quase chorei,
e telefonei para meus novos amigos para ter uma orientação
sobre o assunto.
sabe o que me disseram, to-dos? Que é preciso castrar e esterilizar,
sim. Mas por que, perguntei, vocês que gostam tanto de gatos, não
têm pena?
exatamente por isso, foi a resposta. Se não for feito um tipo de
planejamento familiar, os gatinhos que nascerem serão abandonados
nos parques da cidade e vão morrer de frio e de fome. É
por amor, por muito amor -e consciência- que é preferível
que nasçam menos gatos, já que não existem lares
suficientes para adotá-los.
foi impossível não fazer um paralelo com a infinidade de
crianças abandonadas nos sinais de trânsito e nas Febens
da vida, sem ter quem cuide delas e a cada ano nascendo mais e mais, algumas
de mães de 13, 15 anos, sobretudo no Nordeste, terra do presidente
Lula, que conhece o problema melhor do que qualquer um de nós.
conhece, mas não fala no assunto; nem ele nem uma só pessoa
do governo. Por que será?
artigo gentilmente
cedido pela autora
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